O setor eólico brasileiro aposta na instalação de data centers para ampliar a demanda por energia e estimular novos investimentos. A estratégia ocorre em um momento no qual parques já instalados enfrentam restrições para produzir e entregar toda a energia disponível.
O tema foi discutido durante a 17ª edição do Brazil Windpower, realizada em São Paulo. O evento expôs o desafio de coordenar a expansão das usinas, das redes de transmissão e do consumo para garantir espaço a novos empreendimentos em um sistema que já precisa limitar parte da geração.
A presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeólica), Elbia Gannoum, afirmou que o curtailment, termo utilizado para definir os cortes de geração, ainda não possui uma solução operacional definitiva. Segundo ela, houve avanços na regulamentação das compensações financeiras às empresas, mas as causas físicas das restrições continuam presentes.
A Portaria Normativa nº 140, publicada pelo Ministério de Minas e Energia em julho, regulamenta a compensação por cortes ocorridos entre setembro de 2023 e novembro de 2025. A medida abrange restrições classificadas como decorrentes de problemas de confiabilidade elétrica ou de indisponibilidade externa.
Para aderir à compensação, as empresas precisam assinar um termo de compromisso que prevê a renúncia a disputas relacionadas a restrições ocorridas até o período estabelecido.
A medida, no entanto, não elimina os fatores que provocam os cortes. De acordo com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), as restrições são necessárias para preservar a segurança do sistema quando a energia disponível não pode ser integralmente aproveitada.
A geração eólica e solar varia ao longo do dia e nem sempre coincide com os períodos de maior consumo. Por isso, mesmo que a transmissão seja ampliada, ainda podem ocorrer cortes quando a oferta de energia superar a demanda em determinados horários.
Em um diagnóstico sobre o curtailment, o ONS apontou que a eliminação das restrições nas linhas de transmissão não seria suficiente para resolver completamente o problema. A expansão da rede pode reduzir parte dos cortes, mas o equilíbrio entre produção e consumo depende também de novas formas de utilização da energia.
Nesse cenário, os data centers passaram a ocupar espaço nas discussões do setor. Elbia Gannoum defendeu investimentos na infraestrutura de transmissão necessária para atender essas novas cargas e aproveitar o interesse de grandes consumidores pelo Brasil. A dirigente também apontou a retomada da indústria eólica nacional como uma das prioridades do segmento.
João Galamba, assessor sênior do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC), afirmou que a instalação de data centers deve ser acompanhada pela expansão da geração de energia limpa. Segundo ele, o Brasil precisa garantir capacidade de fornecimento, o que exige investimentos nas redes e medidas para enfrentar o curtailment.
A chegada desses empreendimentos pode abrir novas oportunidades para geradores e fabricantes de equipamentos. No entanto, o impacto sobre os cortes dependerá da forma como os projetos serão implantados.
O aumento do consumo pode ajudar a absorver parte da energia excedente, mas a construção simultânea de novas usinas exige uma avaliação sobre os locais e horários de produção e consumo. A simples confirmação de uma nova carga não permite calcular, por si só, quanto ela poderá reduzir as restrições existentes.
A distribuição dos impactos dos cortes também continua em discussão na área regulatória. Em outubro, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) aprovou regras para organizar a ordem das restrições e compartilhar seus efeitos entre diferentes fontes de geração.
A aplicação definitiva das regras foi prevista para ocorrer 18 meses após a publicação da resolução. Antes disso, deverá ser realizada uma etapa de simulação dos resultados.
No cenário internacional, Elbia Gannoum citou a meta de elevar a participação da eletricidade no consumo mundial de energia para 35% até 2035. O objetivo faz parte da campanha Electrify Now, liderada pela Global Renewables Alliance, com apoio do GWEC.
A iniciativa busca ampliar o uso da eletricidade em transportes, processos industriais e outras atividades que ainda dependem de combustíveis fósseis. A concretização da meta depende de decisões de governos, empresas e consumidores.
Entre os fabricantes, Roberto Veiga, vice-presidente da Goldwind no Brasil, apresentou o investimento da empresa em capacidade industrial em Camaçari, na Bahia, como demonstração do interesse no mercado brasileiro e no fortalecimento da cadeia nacional.
A produção local também tem importância comercial. Ao anunciar a aquisição da fábrica da GE em Camaçari, em 2024, a Goldwind destacou que o atendimento aos critérios de nacionalização do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) facilitaria o acesso dos clientes a financiamentos de longo prazo para a compra dos equipamentos.

